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Portal Competência

27 de agosto de 2014
Eline Kullock


A transparência da Geração Y em um mundo rastreado

Uma geração que faz mais críticas, que fala muito mais o que pensa e que espera ouvir o que pensamos dela

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Não adianta mais dar uma desculpa qualquer para justificar um atraso ou uma ausência nos dias de hoje. Por conta dos novos canais de comunicação, dos quais somos usuários – e também reféns – ficou muito mais fácil pegar uma “mentirinha” dessas. Seu trajeto é conhecido pelos seus contatos se você usa o Waze, os locais em que você esteve ficam marcados no Foursquare, e se você compartilha sua vida no Facebook, Instagram ou Twitter, então, é moleza rastreá-lo.

Para uma pessoa da geração X ou Baby Boomer é uma novidade se ver tão vulnerável, porque nascemos e crescemos em um outro modelo social. Já a geração Y vive nesse esquema de vida “Big Brother” desde que se conhece por gente e, talvez por isso, seja uma das que mais exige transparência nas relações de trabalho e pessoais. Um X ainda pode até tentar a velha tática de dizer que ficou até mais tarde no trabalho enquanto, na verdade, tinha ido a um barzinho tomar chopp com os amigos. Já um Y tem menos medo de dizer onde esteve (mesmo porque já tinha sido publicado nas redes sociais mesmo…). Da mesma forma, para ele é mais difícil deixar passar uma informação pouco confiável que o chefe decida enfiar goela abaixo de seus funcionários. Munido de seu laptop ou smartphone ele vai atrás da verdade, pode ter certeza.

Acho que esse novo modelo começou gradualmente, na medida em que fomos ensinando aos nossos filhos, da geração Y, o valor da verdade. Os psicólogos e educadores de plantão nos recomendaram ser francos, por mais duro que fosse, porque isso os tornaria mais fortes. O coelhinho da páscoa, o papai noel e a fada dos dentes foram saindo de cena, aos poucos, e quem ainda acredita neles é, agora, ridicularizado na escola. As crianças assistem TV e, por mais que a gente diga que os programas são mais adaptados hoje que antigamente, nossos pequenos são como esponjas, absorvendo o tempo todo o contexto em que vivem.

Por isso digo que essa é uma geração mais transparente que a nossa, e também mais aberta para lidar com situações delicadas. Uma geração que faz mais críticas, que fala muito mais o que pensa e que espera ouvir, da mesma forma, o que pensamos dela. O difícil é que nós, os mais velhos, ainda não estamos preparados para falar algumas verdades. Dizemos que os americanos e os europeus falam mais o que pensam, sem medo de serem indelicados, sem receio de ferir suscetibilidades. A geração Y também é assim, meio estrangeira à nossa mania de fazer rodeios com tudo, de dar uma desculpa, de não ter coragem de dizer “qual é”.

Quer saber? Acho que eles estão certos, esses jovens. Nós é que deveríamos nos inserir em um novo ambiente de trabalho, mais objetivo, mais claro, menos mundo de faz de conta. A economia não está boa? O mercado entrou em recessão? É possível que haja corte, sim, é possível. Seu nome está nesta lista? Não sei ainda, mas estou pronto a dar todos os feedbacks possíveis. O mundo não seria mais simples assim, sem tantos “sim, talvez” onde caberia melhor um sincero e sonoro “não”?

Em um mundo com essa nova configuração, não há mais espaço para relação sem feedback, nem na vida pessoal, nem no trabalho. Você não tem tempo de dar feedback? Então não é o gestor dos novos tempos. Desculpe, mas você não poderá ser o gestor dessa geração que busca tão ansiosamente saber como está indo (mas tem todas as dificuldades do mundo em lidar com feedbacks negativos, que fique claro).

Os contratos pessoais e profissionais se dão, agora, por renovação de acordos. Não é mais aquele primeiro contrato que está válido. O que você esperava do seu funcionário não é mais a mesma coisa que você espera hoje. O mesmo vale para a relação de casal. Trate de refazer seus contratos rotineiramente, atualizá-los. A cada momento de feedback diga o que você espera do novo momento. Dar esse retornor requer pensar o que se espera das pessoas e dos processos. E fazer esta reflexão não é fácil, eu sei, mas ser gestor inclui dar os objetivos, dizer se está longe deles, de que maneira poderia estar mais perto, o que se espera do outro e como ele pode crescer na sua empresa, na sua equipe.

Estamos na era da transparência, na era da rapidez, sem tempo pra dizer “o gato subiu no telhado”. Tudo é muito mais rápido hoje do que era no passado. Não é fácil, mas é extremamente necessário.  A era do Pinóquio acabou. A dos contos de fadas, também. Seja objetivo, rápido, mas generoso e acolhedor ao mesmo tempo. Difícil? Mas ninguém disse que ser gestor nos novos tempos seria fácil, disse?



Eline Kullock

Eline Kullock formada em administração de empresas pela FGV-RJ e MBA Executivo pela Coppead – UFRJ. Iniciou a carreira na diretoria da Mesbla Loja de Departamentos, onde atuava como Diretora de Recursos Humanos, Planejamento Estratégico e Organização. Eline também foi diretora da Servenco, na holding que congrega empresas de construção, incorporação, administração de imóveis, Hotelaria e Administração de Shopping Centers. Com diversas palestras ministradas no Brasil e no exterior, a profissional é reconhecida com uma das principais fontes nos temas ligados à Recursos Humanos, além de desenvolver pesquisas sobre o comportamento dos jovens e a influência dos videogames em sua atuação profissional, sendo considerada fonte de referência no assunto, especialmente quando se fala em “Geração Y“.