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Portal Competência

13 de agosto de 2013
Fernando Botto


Primeiramente bom dia

Quando a empresa prioriza seus investimentos na tecnologia logística e se esquece das pessoas

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Funcionária do setor comercial, Monique envia um e-mail breve e direto ao ponto: “Adriano, qual a previsão de entrega do pedido 545?” Adriano, colega da área logística, recebe a mensagem e responde prontamente: “Prezada Monique: Primeiramente, Bom dia. A entrega do pedido 545 está prevista para às 17h.”

Monique recebe a resposta e, diante de seu computador, nas profundezas do seu cubículo 2 por 2, levanta-se com olhar fulminante para o e-mail e, visivelmente alterada, lê em voz alta apenas a primeira parte: “Primeiramente, Bom dia. Primeiramente, Bom dia? O que ele quis dizer com esse “Primeiramente, Bom dia”? Quem ele pensa que é para chamar a minha atenção?” – e seguiu para o cafezinho, fincando os tamanquinhos no chão enquanto balançava a cabeça para os lados e bufava. Ela ficou realmente furiosa. No cafezinho, encontrou o chefe e pediu para que fosse designada outra pessoa para agendar as entregas com a logística, alegando dificuldades de relacionamento com a área.

Cibele foi designada para fazer a ponte entre o comercial e a logística. Logo no primeiro e-mail, escreveu: “Adriano, poderia confirmar a previsão de entrega do pedido 646?”. Adriano responde: “Prezada Cibele, Primeiramente, Bom dia. A entrega será amanhã, 10h.”. Cibele recebe a resposta e, diante de seu computador, nas profundezas do seu cubículo 1,5 por 1,5, levanta-se pasma, boquiaberta e lê, em voz alta apenas a primeira parte: “Primeiramente, Bom dia. Primeiramente, Bom dia? Minha nossa, que cara educado! Que bom que é encontrar um sujeito assim no ambiente de trabalho!”

As variáveis pessoais são responsáveis por grande parte dos conflitos nas organizações e as diferenças de pontos de vista, de posicionamento político e ideológico, de time de futebol, de tribo e até mesmo da cor do cabelo podem ser condições suficientes para que tenhamos uma tendência de receber tudo o que vem de determinada pessoa com os braços abertos ou cheio de pedras nas mãos. Alguns estudiosos afirmam que grande parte dos conflitos que temos nas empresas decorrem de defeitos na comunicação. No entanto, a experiência nos leva a questionar se não seriam as variáveis pessoais que originam grande parte dos problemas de comunicação?

Conflitos interpessoais no ambiente laboral devem ser encarados como acidentes de trabalho: é mais fácil, simples e barato tratar no âmbito da prevenção. Por isso, é fundamental o investimento em formações que promovam o desenvolvimento humano, a interação e o autoconhecimento dos colaboradores. Quando a empresa prioriza seus investimentos na tecnologia logística e se esquece das pessoas, o atraso nas entregas pode surgir como meio de protesto ou de boicote entre áreas que estão cheirando a pólvora e que uma simples faísca, como um mero “bom dia”, pode deflagrar uma crise que nem mesmo o mais avançado sistema tecnológico de entregas seria capaz de solucionar.



Fernando Botto

É palestrante, professor e escritor. Psicólogo e Advogado, mestre em Educação, pós-graduado em Direito e Negócios Internacionais e especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise. Morou seis anos no exterior, principalmente na África, onde atuou como executivo de empresas privadas e consultor de empresas públicas. Nesse período, interagiu com variadas culturas e diferentes estilos de chefia, liderança e de gestão. Aprecia trabalhos de responsabilidade social e desenvolve projetos nas áreas de educação corporativa, sobretudo relacionados à negociação, liderança, comunicação intra e interpessoal, gestão de equipes de alta performance e criatividade. Em suas horas de lazer, gosta de fotografar e de escrever roteiros de stand-up comedy. Twitter:@fernandobotto e-mail: fernandokwz@gmail.com