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Portal Competência

3 de setembro de 2013
Rosangela Duarte


Histórias de aprendizes e mestres

O gerente sênior como facilitador da aprendizagem de seus colaboradores

Rosangela

O gerente sênior como facilitador da aprendizagem de seus colaboradores

Educação corporativa:  A alta cúpula das empresas que possuem Universidades Corporativas ou desejam tê-las está cada vez mais envolvida e comprometida com o processo de aprendizagem de seus colaboradores. Sessões de aprendizagem conduzidas pelos gerentes seniores mostram a importância de  ouvir os colaboradores, compartilhar seus conhecimentos e, também, aprender com eles. O valor dessas sessões consiste em promover a cultura de aprendizagem contínua, em que aprender e ser reconhecido por ensinar tornaram-se a máxima entre as organizações das melhores práticas.

Caro leitor, a história  pessoal que lhe apresento ilustra o envolvimento daquele que lidera como facilitador da aprendizagem de seu liderado. Ainda que a experiência relatada a seguir tenha acontecido no meio acadêmico e há tantos anos, ela se mostra atual e, portanto, pode exemplificar  o que nomeio de gerência da “ensinagem” vinculada  à visão estratégica das empresa modernas.

Boa leitura!

Dona Florença

1979

Por quase três décadas, Dona Florença lecionou Francês para várias e variadas turmas da escola pública de São Paulo.

Na época em que a conheci, iniciava minha carreira de magistério na rede pública de ensino e ela, à beira da aposentadoria, ocupava o cargo de auxiliar da coordenação pedagógica na escola em que ingressei como professora CET (Contrato Especial de Trabalho – professora contratada para ocupar vagas remanescentes das oferecidas a professores concursados).

Sua voz grave e forte, a palavra fluída, impecavelmente colocada (Dona Florença pronunciava com musicalidade), contrastavam com o cabelo grisalho preso num coque clássico que compunha sua figura determinada, discreta, requintada. Figura de mulher bem nascida e bem educada como outras tantas professoras  que conheci no meu tempo de estudante na escola da rede pública de SP, onde cursei os antigos Ginásio e Colegial.

Por respeito à sua idade e por identificá-la com os professores que tive, no início de nossa convivência, sentia-me constrangida em sua presença e me colocava diante dela sempre como sua aluna e nunca como sua colega.

Mal sabia que ela seria mesmo minha mestra para tantas coisas que eu deveria aprender para poder ensinar!

Coube a ela orientar-me a preencher, impecavelmente, os documentos de registros oficiais com pontualidade, letra legível, sem rasuras e clareza no texto, para conferir-lhes seriedade e confiabilidade.

Coube a ela ensinar-me a fazer o planejamento anual, mensal, semanal e diário de minhas aulas. E mais do que isso, saber que eles não podem nascer para morrerem em gavetas ou escaninhos.  Ao contrário disso, se os criamos, somos responsáveis por lhes dar vida útil em sala de aula, desenvolvendo-os e lhes permitindo o amadurecimento ao longo do ano letivo.

Coube a ela advertir-me de como conduzir e de como mediar situações conflituosas em sala de aula: observar, ouvir, sentir; conhecer, analisar, ponderar; posicionar-me justa e coerentemente; buscar solução em diálogo com os alunos.

Coube a ela reforçar em mim o que já veio de berço: ser elegante é ser bem educado; ser profissional é amar o que se faz e fazê-lo com competência; ser colega é respeitar o limite dos pares; ser ético é colocar-se no lugar do outro.

Coube a ela instruir-me a receber e a conversar com pais de alunos:  respeito, seriedade, firmeza, equilíbrio, objetividade, clareza, coerência, justiça temperados com muita, muita, muita generosidade.

Coube a ela mostrar-me  o valor de co-laborar e de aprender com os pares. O que não se sabe, aprende-se com o outro, socialmente. O que se sabe, deve-se compartilhar com confiança.

Coube a ela encorajar-me a ensinar com alegria e bom humor e  a convencer-me de que me divertir com os alunos não anularia minha autoridade sobre eles.  As aulas não precisam ser cinzas e autoritárias como a cor das paredes das salas de aula. Elas podem ser divertidas e, portanto, leves, sem perderem a seriedade do ofício.

Dona Florença, ensinou-me por meio de seu discurso, e muito mais por meio de seu exemplo, que a ação de quem professa na sala de aula não é neutra, é ação política e como tal deve ser educativa, objetivando fazer da criança e do jovem, homens e mulheres mais humanos. Felizmente tive outras tantas, boas e fortes referências como ela.

Sinto-me feliz e rio de mim mesma, quando me flagro Florençando!!!!



Rosangela Duarte

Mestre em Educação: currículo pela PUC-SP. Graduada em Letras: Português e Inglês pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua como consultora pedagógica para o desenvolvimento e implementação de cursos e treinamentos corporativos e acadêmicos na modalidade de Educação a distância. Ministra cursos de formação de gestores e de professores para o uso da Tecnologia da Informação e Comunicação na educação.