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Portal Competência

9 de setembro de 2014
Eline Kullock


A Geração Y tem seu próprio tempo

A rapidez do mundo atual nos faz ter interpretações diferentes de um mesmo termo

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Uma das características determinantes de uma geração é, certamente, seu modelo mental. Esse modelo nada mais é do que a maneira de agir, pensar e de ver o mundo e as coisas, construído a partir dos usos e costumes da sociedade vigente. Nesses usos e costumes estão incluídos momentos históricos e políticos, evolução tecnológica, comportamento da família e do entorno, opinião pública, moda, entre outros fatores que podem afetar a formação do nosso caráter e influenciar nosso comportamento.

Um exemplo simples: eu vivi o tempo da carta. Aos 15 anos, quando morei em Londres, por exemplo, eu me comunicava com minhas amigas no Brasil por meio de troca de cartas. Se eu perguntasse, em uma delas: “Como foi sua festa de 15 anos?”, ia ter que segurar a curiosidade e esperar “um pouco” pela resposta. A carta demorava cerca de quinze dias para chegar no Brasil. Se minha amiga fosse rápida e me escrevesse logo em seguida, a resposta levaria ainda mais quinze dias para chegar às minhas mãos. Assim, com sorte, em um mês, eu teria a resposta na minha “caixa de entrada”…

Quando eu conto isso aos jovens da geração Y, sinto que eles ficam realmente passados. Para eles, é impensável se imaginar em um mundo desses, onde seria preciso esperar um mês para ter uma notícia que hoje se tem em questão de segundos… Assim, essa minha experiência – de ter vivido na época da carta e ainda ter “alcançando” a era do Twitter e do Whats App, ferramentas que eu uso e domino – me proporcionam um modelo mental único. Significa que ele é diferente do modelo mental do jovem – que nasceu com a tecnologia – mas também muito distinto do modelo mental dos mais velhos, que ficaram só na carta…

Engraçado que a moçada de hoje não sabe sequer o que é um papel de carta. Quando mostro, em palestras ou treinamentos, o papel de carta da minha época – aquele fininho, que a gente usava para pesar menos no correio via aérea, percebo que o jovem não tem registro do que seja aquilo. Eles geralmente demonstram a mesma reação de quando veem uma máquina de datilografia manual…

Trata-se de uma questão de referência. A rapidez do mundo atual nos faz ter interpretações diferentes de um mesmo termo. A partir do meu modelo mental, “rápido” é uma coisa completamente diferente para mim e para um millenial. Assim como quando uso referenciais internos para dizer “longe” ou “perto”, a noção de rapidez passa pelo mesmo processo: nossa forma de ver o mundo e nosso modelo mental.

A noção de rapidez se modificou muito com a sociedade do hiperconsumo. Nos dias de hoje, o marketing agressivo do “carpe diem” pede que a gente se divirta agora, porque o amanhã não é controlável e pode nem existir. Ele nos impele a comprar já, porque amanhã o produto pode ter se esgotado. Essa sociedade da rapidez e do presentismo, que nos estimula para que o prazer seja imediato, também é a responsável por guardarmos cada vez menos dinheiro. Não é à toa que o nível de endividamento da população tem aumentado, na mesma medida em que o nível de poupança tem diminuído.

Nessa ânsia, do “faça hoje e faça rápido” os jovens entraram em um processo angustiante de querer estar em todos os lugares ao mesmo tempo. O Facebook, e as redes sociais, de forma geral, estimula este comportamento. Porque nesse universo, em que todo mundo compartilha diversão o tempo todo, o jovem sente a necessidade de estar presente em todas. Quer curtir tudo, quer comentar tudo, quer fazer parte. Quer ser feliz.

Você já deve ter presenciado a cena: um jovem, em uma festa, fazendo selfies, postando e comentando no Facebook, subindo fotos no Instagram, se exibindo, feliz, sem estar, necessariamente, “participando” do evento. Está apenas presente – e quer mostrar que está – mas não vive de verdade o momento. Mesmo assim, ele fica ali olhando as postagens da timeline, e tem a impressão que a grama do vizinho é sempre mais bonita, ou seja, tem sempre alguém curtindo mais do que ele em outro lugar, em outra balada.

Analisando tudo isso, é possível entender que o jovem muda de emprego quando se entedia. Ele imagina – pelo que vê todo dia na tela do seu smartphone – que os amigos estão se divertindo mais do que ele no trabalho. Então, ele muda nessa busca incessante do prazer instantâneo, e constante. É o mesmo tipo de comportamento que o leva a sair da festa e ir correndo para “aquela outra”, que parecia mais divertida…

Este ciclo é extremamente frustrante e angustiante. Viver nessa “vibe” pode causar depressão, porque não é fácil ter que escolher entre tantas opções para ter seu prazer instantâneo e, no fim, nem mesmo ter essa garantia. Mas isso é tema para outro post. Quem sabe no próximo?



Eline Kullock

Eline Kullock formada em administração de empresas pela FGV-RJ e MBA Executivo pela Coppead – UFRJ. Iniciou a carreira na diretoria da Mesbla Loja de Departamentos, onde atuava como Diretora de Recursos Humanos, Planejamento Estratégico e Organização. Eline também foi diretora da Servenco, na holding que congrega empresas de construção, incorporação, administração de imóveis, Hotelaria e Administração de Shopping Centers. Com diversas palestras ministradas no Brasil e no exterior, a profissional é reconhecida com uma das principais fontes nos temas ligados à Recursos Humanos, além de desenvolver pesquisas sobre o comportamento dos jovens e a influência dos videogames em sua atuação profissional, sendo considerada fonte de referência no assunto, especialmente quando se fala em “Geração Y“.