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Portal Competência

1 de julho de 2014
Eline Kullock


A Geração Y e o confronto com a autoridade

Não está na hora dos nossos jovens gritarem por causas semelhantes?

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Já é fato que a geração Y diz mesmo o que pensa. É interessante observar como as pessoas de outras gerações têm mais dificuldade em dar certas opiniões mais contundentes, enquanto os jovens argumentam e expõem suas ideias de maneira firme e direta, sem subterfúgios.

Isso talvez aconteça porque o jovem não vê a autoridade da mesma maneira como nós vemos. Os estrangeiros, por exemplo, ficam muito impressionados que, no Brasil, as pessoas não tenham o hábito de contradizer seus superiores. Se o chefe disse, está dito e tal fala é acatada como uma verdade.

Ao mesmo tempo, o brasileiro, por pressão, aceita que o gestor lhe peça um relatório para ser entregue no dia seguinte ou num prazo curto e, no dia de entregar o que havia sido prometido, muitas vezes não terminou o que deveria ter sido feito. Aí, vem com mil e uma explicações, que acabam não adiantando de nada. É mais fácil prometer, concordar com o chefe e, na hora, “dar um jeitinho”, usando argumentos para dizer que não ficou pronto.

Já a geração Y não aceita a autoridade só porque a pessoa a quem está se dirigindo tem um cargo mais importante, ou porque é seu professor. Isso é explicado pela criação da família, que agora se dá de uma maneira muito mais liberal, em que a estrutura hierárquica da casa é mais achatada, é mais “flat”. Pais e filhos moram no mesmo ambiente, mas os filhos passam a ser mais companheiros que dividem a casa – ao contrário de como se configurava a estrutura familiar hierárquica antiga, em que o pai dava sua opinião e não havia possibilidade de contestá-lo. E, assim, os jovens seguem a vida sem dar muita importância às autoridades que encontram pelo caminho.

Tenho uma historinha muito interessante, sobre certa vez em que eu estava dando palestra e explicando exatamente que os jovens não veem a autoridade da mesma maneira como nós, de outras gerações, víamos. E, por isso mesmo, eles têm uma excelente capacidade de discordar, de pensar por si próprios e refutar uma opinião, não tendo tempo, algumas vezes, de digerir aquilo que lhes é falado de modo profundo.

Imediatamente, um membro da geração Y que estava na plateia disse: “Eu discordo!”. Todo mundo caiu na gargalhada, porque a resposta dele se encaixava diretamente no que eu havia acabado de dizer. Algumas vezes, sem refletir tanto, o jovem discorda simplesmente pelo prazer de discordar, pela vontade de colocar sua própria opinião e de se sentir “no mesmo nível” do seu interlocutor.

Contudo, em minha opinião, essa postura diante da autoridade é um coisa excelente. Pela capacidade de dizer o que pensa, o jovem pode estar mais preparado pra reagir diante de coisas com as quais não concorda, seja no âmbito político, social, em questões ambientais, na escola, enfim, em qualquer espaço do qual participe.

Talvez a geração Y esteja mais preparada pra lidar com um Brasil democrático, onde possa expressar ideias, trabalhar contra as questões de desvio de dinheiro público, enquadrar pessoas sem ética e sem moral, e lutar pelo fim da corrupção. Esse país precisa de gente que fale o que pensa e, talvez, as coisas comecem a mudar quando os jovens entenderem seu potencial de transformar o Brasil em um lugar mais justo e mais correto, ou quando conseguirem “gritar” para as autoridades seus descontentamentos, como fizeram no Chile, por uma reforma educacional.

O movimento do Chile só vem mostrar a força de um grupo que não se submete a uma autoridade que não seja democrática. Os jovens chilenos exigem mais recursos para as universidades públicas e o rebaixamento dos juros do crédito que utilizam para financiar suas carreiras.

Não está na hora dos nossos jovens gritarem por causas semelhantes?



Eline Kullock

Eline Kullock formada em administração de empresas pela FGV-RJ e MBA Executivo pela Coppead – UFRJ. Iniciou a carreira na diretoria da Mesbla Loja de Departamentos, onde atuava como Diretora de Recursos Humanos, Planejamento Estratégico e Organização. Eline também foi diretora da Servenco, na holding que congrega empresas de construção, incorporação, administração de imóveis, Hotelaria e Administração de Shopping Centers. Com diversas palestras ministradas no Brasil e no exterior, a profissional é reconhecida com uma das principais fontes nos temas ligados à Recursos Humanos, além de desenvolver pesquisas sobre o comportamento dos jovens e a influência dos videogames em sua atuação profissional, sendo considerada fonte de referência no assunto, especialmente quando se fala em “Geração Y“.