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Portal Competência

13 de agosto de 2013
Fernando Botto


Eu sou o meu time

Há dois tipos de colaboradores que vestem a camisa: os que vestem a da empresa e fazem parte do time e os que vestem a própria camisa

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Há dois tipos de colaboradores que vestem a camisa: os que vestem a da empresa e fazem parte do time e os que vestem a própria camisa. E o time? Que se dane o time! O que importa são os meus resultados.

“Vestir a camisa” é uma figura de linguagem que tem origem no futebol e remete a comprometimento, garra, lealdade e espírito de equipe, dentre tantas outras características que podem transformar um mero perna-de-pau num valioso líder em campo, ainda que pouco técnico. Isto é, aquele antes descredibilizado pela sua técnica no passe de bola, torna-se um inspirador guerreiro.

Para o mundo corporativo, importou-se também a expressão “vestir a camisa” e o seu emprego passou a representar atitudes similares às dos campos, mas com uma ressalva, claro, estas ações voltavam-se aos interesses da empresa. Aliás, “interesses da empresa” é outra figura de linguagem a trabalhar com a abstração, afinal, estes objetivos não são da corporação em si, mas sim das pessoas que ocupam as posições de liderança e a representam. Os objetivos organizacionais são, pois, transformados em metas definidas e distribuídas pelos líderes, que dirigem, orientam, apoiam e delegam para que os resultados apareçam.

Assim como um técnico de futebol acompanha o preparo físico dos atletas, define uma estratégia e escala o plantel, o líder nas empresas acompanha a evolução de seus liderados, define as estratégias de capacitação e, acima de tudo, toma decisões que visam, antes de atender a interesses individuais, à proteção do grupo. A liderança é um processo grupal e, para que o grupo se transforme em time, é necessário convocar o desejo de cada um de querer fazer parte dele e de vestir a camisa. Contudo, há algo que muitas vezes é difícil de perceber e de distinguir: qual camisa cada colaborador está vestindo?

Frequentemente, encontramos exemplos de colaboradores de alto desempenho, sem faltas, participativos, comprometidos e muitas vezes bastante combativos na defesa de seus valores – que vestem a camisa como ninguém – e são prestigiados, agraciados, premiados e aplaudidos pelas lideranças. No entanto, deve-se atentar a que camisa é essa. Existem dois tipos de camisas. Explico: uma delas é notada em colaboradores que vestem a camisa “da empresa”, que a defendem com unhas e dentes, que não admitem que falem mal dela por aí, que a protegem inclusive em fóruns das redes sociais, bem como a apoiam, lutam por ela e sempre estão disponíveis com um forte e vibrante “sim!” para o que der e vier. A outra forma de vesti-la é topograficamente muito parecida: é a dos colaboradores que vestem a própria camisa.

Vestir a própria camisa também traz resultados para a empresa, aparenta comprometimento e expressa garra, mas tais características são estritamente dirigidas aos propósitos pessoais e egoístas do colaborador. Dane-se o grupo. Não é raro encontrar os vestidores da camisa “Eu sou o meu time”. Aos olhos de uma liderança desavisada, tal colaborador obtém resultados magníficos à custa da escalada nas cabeças de seus pares, do boicote de objetivos alheios e da sub-reptícia e ardilosa maneira de minar a carreira de seus concorrentes diretos.

Toda medida de depuração é muito difícil e dolorosa para o líder. No entanto, ele tem o dever de proteger o grupo e de escolher entre a formação de um time de uma camisa só ou de um emaranhado de colaboradores, cada qual defendendo as suas cores e trazendo resultados, a que custo for.



Fernando Botto

É palestrante, professor e escritor. Psicólogo e Advogado, mestre em Educação, pós-graduado em Direito e Negócios Internacionais e especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise. Morou seis anos no exterior, principalmente na África, onde atuou como executivo de empresas privadas e consultor de empresas públicas. Nesse período, interagiu com variadas culturas e diferentes estilos de chefia, liderança e de gestão. Aprecia trabalhos de responsabilidade social e desenvolve projetos nas áreas de educação corporativa, sobretudo relacionados à negociação, liderança, comunicação intra e interpessoal, gestão de equipes de alta performance e criatividade. Em suas horas de lazer, gosta de fotografar e de escrever roteiros de stand-up comedy. Twitter:@fernandobotto e-mail: fernandokwz@gmail.com