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Portal Competência

4 de agosto de 2014
Laisa Prust


Empresa não é grande família

As relações que unem pessoas em cada contexto são diferentes: empresa é empresa e família é família

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Poucas expressões usadas por presidentes e diretores de empresa me incomodam tanto quanto “Nossa empresa é uma grande família”. Não especificamente porque é um clichê, pois eles às vezes encerram grandes verdades, mas porque, cada uma com suas idiossincrasias: empresa é empresa e família é família.

As relações que unem as pessoas em cada contexto são bem diferentes, a começar pela perenidade. Ninguém “sai” de uma família afirmando que está “em busca de novos desafios” ou é desligado dela porque “seu perfil não corresponde mais à nova organização que estamos procurando criar”. Quem nasce em determinada família vai morrer nela, enquanto, na empresa, o período em que os empregados permanecem ligados à organização é ditado pelos interesses de ambas as partes e regido por um contrato de trabalho.

Compreendo que o motivador do discurso de que a empresa é uma grande família, normalmente proferido em ocasiões como o momento de boas-vindas ou as festas de final de ano, pode ser o desejo genuíno de expressar os valores familiares idealizados: um forte sentimento de união e pertencimento, com confiança mútua, estreitos laços afetivos, harmonia, de modo a trazer conforto às pessoas - tudo isso reafirmando os vínculos sociais comuns e trazendoa perspectiva de um ambiente protegido no qual a identificação, a relação afetiva com a organização e a fidelidade são esperadas.  Contudo, sabemos que a família, como qualquer outro grupo social, pode ser o cenário onde grandes crueldades acontecem e, às vezes, se estabelecem diferenças irremediáveis entre seus membros,  de modo que tomá-la como símbolo da convivência harmônica, do respeito às individualidades e diversidades pode ser no mínimo arriscado. Afinal, em momentos críticos que exigirem da empresa a tomada de decisões impopulares, esta máxima pode ser colocada em xeque: onde está a proclamada grande família?

Há muitas alternativas para um acolhedor discurso de boas-vindas ou um emocionante agradecimento ao final de um ano de conquistas, tirando proveito, por exemplo, do fato de, ao contrário da família, a empresa escolher seus membros e procurar fazê-lo buscando os melhores e complementando que, enquanto a relação entre as partes durar, que ela seja permeada por valores como transparência e respeito mútuo, entre outros.

Este discurso parece-me mais honesto, realista e factível, porque encerra a ideia de que as relações profissionais podem ser quebradas quando não interessar mais a qualquer uma das partes, embora se espere que ela seja longa e profícua. Também indica que essa relação está permeada por relativa liberdade, de modo que os que estão na empresa, teoricamente, comungam da maior parte dos valores da organização e permanecem nela porque desejam.

A verdade é que, qualquer que seja o discurso, o esperado é que ele seja honrado pela prática; sem isso, não adianta falar bonito.



Laisa Prust

É psicóloga e mestre em Psicologia pela UFPR, com especialização em Treinamento e Desenvolvimento de Recursos Humanos e Gestão Estratégica de Pessoas pela FAE. Atua na área de RH há mais de 15 anos. Em seu currículo consta também experiência como professora em instituições de ensino superior. Atual membro da diretoria de Projetos e Pesquisas da ABRH-PR. Interessa-se por comunicação assertiva e cultura organizacional.