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Portal Competência

15 de outubro de 2014
Eline Kullock


A dificuldade da geração Y em expressar sentimentos

É preciso muito esforço para entender o que essa geração quer dizer

A dificuldade da geração Y em expressar sentimentos

Há anos lidando todos os dias com jovens em início de carreira, cheguei a uma séria conclusão: a geração Y está mais perdida do que nunca. Como consequência, o descompasso de compreensão entre as gerações só cresce. Tenho cada vez mais a sensação de que é preciso muito esforço para entender o que essa geração quer dizer. Quantas vezes vi essa moçada patinando sem conseguir dar clareza a seus questionamentos ou à transmissão de uma ideia? O que vem deles tem chegado a nós, os mais velhos, de forma muito caótica.

Um exemplo: eles têm muitas dúvidas sobre a carreira, mas quando conversamos com eles, cavando um pouco para tentar entender o problema, eles não sabem explicar exatamente do que gostam ou o que esperam. Divagam, se explicam, mas não dizem nada tangível.

Outro: eles saem de uma empresa sem ter claro o motivo. Não têm explicação a dar nem à empresa, nem a eles mesmos. E começam a procurar um novo trabalho sem saber o que o incomodava no anterior. Na minha época, tínhamos uma entrevista de desligamento, na qual toda a roupa suja era lavada, e falávamos claramente o que tinha acontecido. Não era um exercício tão difícil assim e ainda ajudava na busca de um novo trabalho.

Um outro aspecto gritante do comportamento dessa geração e que está ligado a esse jeito nebuloso de se expressar é a dificuldade que eles têm em reconhecer e demonstrar sentimentos. E, nesse ponto, eu tenho uma vaga ideia do porquê: a busca do jovem está focada nos prazeres externos da vida. Tudo precisa ser “fun”. Tem que curtir, senão não tem graça. Tenho a impressão que eles não conseguem – ou não sabem como – captar as dopaminas internas que todos temos, nos pequenos prazeres, nos pequenos momentos e nos aprendizados que valem muito…

Volto aos sentimentos, porque é algo que me impressiona nessa geração. Analisemos. Os Y terminam relações por WhatsApp. Jogam um segredo alheio no Secret sem se importar com as consequências daquilo para a vida da pessoa atingida. Eliminam pessoas do Facebook sem o menor critério, no calor de qualquer desagrado, sem pensar no futuro e em suas infinitas possibilidades e cruzamentos. O importante é eliminar o problema já. O resto… depois a gente vê…

Acredito que essa impulsividade torna essa geração menos previsível e, portanto, mais angustiada. Na ânsia da busca pelo prazer o tempo todo, prejudica a construção das relações afetivas. Afinal, elas demandam paciência, compreensão, perdão, diálogo, e todas essas outras tarefas que dão muito trabalho! Interessante notar que agindo no calor das coisas, eles acabam gerando outros sentimentos negativos (fobia, insegurança, medo) e se distanciando da razão inicial do que os angustia…

Falar e entender nossos sentimentos nunca foi algo simples, embora muita gente acredita dominar o autoconhecimento. Mas percebo que a geração Y tem ainda mais dificuldade nesse campo. Primeiro porque está “aparentemente” ocupada com sua agenda lotada: deslocamentos intermináveis, trabalho, academia, redes sociais. Depois, porque isso parece chato para eles (como tudo que requer um pouco mais de profundidade).

A famosa DR (discussão da relação) é abominada pelos jovens, e não é por acaso. Eles têm a sensação que aquilo é uma bronca e não um exercício importante para expor, discutir e entender seus próprios sentimentos. Talvez porque se conheçam pouco e não dispensem tempo para este momento de reflexão. Nesse caso, fica mesmo parecendo perda de tempo. Com tanta coisa a fazer em uma sociedade medida pelo número de pages view, ainda tem gente querendo falar de sentimentos?! Tenham dó.

Mas, é claro que o jovem tem sentimentos, e eu não seria maluca de dizer o contrário. Contudo, penso que, ao se sentir frustrado, ou com raiva, ciúme, inveja, desprezo, desespero, mágoa, tristeza (sentimentos que se traduzem basicamente em angústia) ele tende a escapar da situação em vez de discuti-la. Discutir causa estresse e a geração Y tem pavor disso.

Como boa Baby Boomer que já errou e acertou muito nesta vida, e grande observadora dessa geração, gostaria de deixar um ensinamento aos Ys: não adianta fugir dos sentimentos. Ignorá-los não leva a angústia embora, ao contrário: mal resolvida, ela pode voltar ainda mais forte.

A vida necessita de pausas e elas não representam perda de tempo. Ao contrário, são parte do amadurecimento e do crescimento. Dê um tempo a si mesmo simplesmente para pensar – o chamado ócio criativo – para admirar as coisas ao redor ou para refletir sobre o quanto você se conhece. Descobrir o que faz ter amor ou raiva, sentir inveja ou orgulho, o que realmente o deixa feliz ou chateado. E claro, pensar nas reações caso a caso.

No ambiente profissional, é possível aplicar a mesma regra: diga sem rodeios ao seu chefe o que não está gostando. Explique suas dúvidas a ele em vez de ir discutir o assunto com outra pessoa. Ele é a pessoa que pode dar as respostas mais adequadas às suas questões. Procure um tempo na agenda de ambos (não vale fazer isso na hora de ir embora), explique que gostaria de ter uma conversa com ele. Mande pau, mas sem agressões. As pessoas mais velhas tendem a se sentir agredidas quando são confrontadas muito diretamente. Colocá-lo contra a parede também não funciona. Só pergunte, escute e fale. Seu desafio é nunca começar uma frase com um “não”.

Para finalizar, aplique esta última regra também na vida: converse mais sobre seus sentimentos com pessoas de quem você goste. Não é fácil, no início. Nunca é para ninguém. Mas uma vez dentro dessa dinâmica e usufruindo dos seus benefícios, você verá como pode ser bom entender seus próprios sentimentos, expor suas dúvidas e ouvir conselhos, opiniões, elogios e, por que não, críticas. Tudo isso ajuda a crescer.



Eline Kullock

Eline Kullock formada em administração de empresas pela FGV-RJ e MBA Executivo pela Coppead – UFRJ. Iniciou a carreira na diretoria da Mesbla Loja de Departamentos, onde atuava como Diretora de Recursos Humanos, Planejamento Estratégico e Organização. Eline também foi diretora da Servenco, na holding que congrega empresas de construção, incorporação, administração de imóveis, Hotelaria e Administração de Shopping Centers. Com diversas palestras ministradas no Brasil e no exterior, a profissional é reconhecida com uma das principais fontes nos temas ligados à Recursos Humanos, além de desenvolver pesquisas sobre o comportamento dos jovens e a influência dos videogames em sua atuação profissional, sendo considerada fonte de referência no assunto, especialmente quando se fala em “Geração Y“.