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19 de agosto de 2014
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O conteúdo é o rei?

Por Denilson Farias

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Todos dedicamos parte significativa do nosso tempo para o consumo de conteúdos, por necessidade ou por prazer, que nos tragam conhecimento, informação e entretenimento.

De um lado, quanto mais relevância e aderência a estes nossos interesses, mais dedicamos tempo ao consumo deste conteúdo, quanto mais ele sacia nossas necessidades, mais estamos dispostos a pagar por ele.

De outro, quanto mais amplo e recorrente o público que este conteúdo atende, maior seu volume de consumo e maior sua capacidade de ser atraente também para quem busca exposição (o anunciante) e então se abrem as possibilidades de financiar este conteúdo com publicidade além da venda do conteúdo em si.

Assim se forma o ciclo de negócios de quem produz conteúdo, busca de relevância para quem o consome, volume para quem anuncia.

O conteúdo é o centro de tudo, portanto é sim, Rei.

Conteúdo é o motor essencial de vários setores: educação, comunicação, entretenimento. É o ofício de equilíbrio entre técnica e arte de muitos e talentosos profissionais: artistas, cineastas, escritores, músicos, jornalistas, pintores, professores, educadores, atores, compositores etc.

Não há o que discutir sobre a realeza do conteúdo, mas vale discutir que tipo de rei ele é.

Sem esta discussão é fácil escorregar no pensamento muito simplista, equivocado e até perigoso para a própria manutenção na qualidade da criação deste valioso bem, de que o bom conteúdo basta em si, que a demanda sobre ele é constante, crescente e suficiente para atrair público e remuneração adequada em forma de pagamento direto ou indireto (assinaturas, publicidade ou patrocínios).

Novos jogadores

Conteúdo é rei, de fato, mas como é o rei do jogo de xadrez. No xadrez o rei é a peça mais importante, o jogo só continua com o rei no tabuleiro e todos os lances são feitos em função disso. Todos conhecem o jogo, o rei é essencial mas joga muito pouco, outras peças tem mais mobilidade de movimentos, atacam e defendem, ocupam espaços e determinam em conjunto o resultado final do jogo.

O conteúdo também precisa de outras peças para garantir seu sucesso e muitos veículos (os responsáveis por conectar conteúdo e público) esquecem totalmente disso.

Formato & design, distribuição, marketing & vendas estão para o conteúdo como a rainha, bispos, cavalos e torres estão para o xadrez. Se jogarem bem o rei está a salvo e o jogo ganho, se jogarem mal…

Quando uma nova tecnologia surge e muda a maneira de se obter sucesso em uma destas peças todo o jogo está em risco, muitos não percebem isso, demoram a reconhecer e principalmente a se adaptar para competir, colocando todo o seu conteúdo (rei) em alto risco.

A internet mudou drasticamente as regras para uma das peças importantes do jogo, a distribuição, que por sua vez abriu horizontes totalmente novos para outra peça crucial, as vendas.

O cinema foi quem melhor percebeu os impactos em seus negócios e rapidamente colocou para jogar melhor a peça formato (telas grandes, 3D) e fortaleceu suas peças distribuição (salas melhores, serviços), marketing (muito mais marketing no orçamento dos filmes) e vendas (internet, mobile, totens, etc), assim sua receita teve uma ligeira queda durante um período mas hoje já se encontra em recuperação e bate recordes históricos.

Hoje ninguém ainda corre mais este risco que as mídias impressas e nestas o jornal diário impresso.

A mudança é enorme, não tanto para o conteúdo onde os veículos impressos fizeram e continuam fazendo suas únicas apostas colocando quase todos os seus investimentos numa busca de adições, compilações, transposições e extensões de conteúdo sem fim apostando que levarem seus conteúdos para formatos digitais é o suficiente quando a grande disruptura ocorre na distribuição, com grande impacto nesta sobre o processo de Vendas.

Estes veículos concentram suas atenções e investimentos em conteúdo e de maneira mais superficial em formato (peça do jogo que tradicionalmente é vista como subalterna por quem sofre de miopia conteudista) e sem perceber estão a beira de perder todo o jogo por não competirem mais eficientemente com as peças distribuição e marketing & vendas.

A mudança é tão grande para a distribuição (e a desintermediação decorrente) pulverizando de tal forma as possibilidades de produção de conteúdo, que novos jogadores, essencialmente tecnológicos, se concentram “apenas” em distribuição (na forma de agregar e distribuir este conteúdo pulverizado) (buscadores, redes sociais, portais) e em vendas (acesso direto, segmentação, análises em tempo real, venda por desempenho), evitando os altos custos de produção e tornando-se altamente eficientes em capturar atenção (tempo de seus públicos) e ainda mais, verba de publicidade.

Valor da equipe

No mundo internet, se um anunciante pensa em fazer uma campanha em regiões geográficas distintas, para atingir um público de faixa etária específica e com peças publicitárias diferentes para públicos distintos, como é mais fácil, ágil, mensurável, remoto, segmentado e automático fazer?

Procurar um a um veículos de conteúdos locais e atender todas as suas regras comerciais e de formatos publicitários ou fazer isso a partir de uma ferramenta de uma rede social, uma plataforma de vídeo, um agregador de blogs ou mecanismo de busca conhecido com tudo automatizado? Quem preparou sua tecnologia de vendas para melhor atender demandas de anúncios internet?

O famoso pintor sofreu muito com seu conteúdo maravilhoso não sendo vendido (vendas), um editor experiente sabe muito bem a diferença que uma boa capa de livro faz em sua venda (formato), na localização dentro do ponto de venda (distribuição), um executivo sabe que precisa investir 1/3 do custo da produção de um bom filme em divulgação (marketing), o cineasta sabe que seu filme precisa de salas para emplacar (distribuição), assim como as melhores ferramentas de busca e redes sociais do vale do silício sabem que precisam áreas comerciais proativas, eficientes e suficientemente grandes para prospectarem, atenderem e fidelizarem clientes (vendas).

Google, Linkedin, Facebook, entre outros não são apenas eficientes em criarem produtos tecnológicos, sem investir em conteúdo, que são relevantes e geram muito volume de audiência para hoje serem os campeões na verba publicitária digital, eles tem as melhores ferramentas e muito mais pessoal dedicado à vendas e atendimento do que os meios tradicionais de mídia.

O meios tradicionais, especialmente jornais, estão com tanta dificuldade de entender o jogo das Vendas na internet que acabam terceirizando isso, são incapazes de monetizar seus inventários online, terceirizado seus page views para vendedores globais mais eficientes.

O conteúdo é rei, mas está longe de ser autossuficiente no tabuleiro.

Sempre haverá espaço para conteúdo, é uma demanda universal. A questão é quem sabe aliar produção, qualidade e relevância com capacidade de vendas, relacionamento e objetividade que fazem o negócio se sustentar.

Os meios tradicionais, especialmente jornais, precisam entender em tempo que o conteúdo sozinho não vira o jogo, que as outras peças precisam jogar muito mais, especialmente vendas, relacionamento, marketing e tecnologia.

 

Denilson Farias é administrador e CEO da Dtcom.



Redação, Portal Competência