Esqueceu sua senha?

Portal Competência

14 de janeiro de 2015
Eline Kullock


O avanço da tecnologia e o impacto nas profissões do futuro

Até onde o nosso talento para desenvolver e aprimorar máquinas inteligentes pode nos levar?

O avanço da tecnologia e o impacto nas profissões do futuro

Segundo uma declaração dada há algumas semanas pelo renomado físico inglês Stephen Hawking, o avanço da inteligência artificial pode extinguir a raça humana. A profecia parece catastrofista, mas a afirmação deste que é um dos cientistas mais conceituados da atualidade foi baseada apenas em fatos de nossa própria realidade.

Para Hawking – que, aliás, depende da tecnologia para poder conviver com a doença que rara da qual é portador (esclerose amiotrófica), o desenvolvimento de robôs pensantes é uma real ameaça à espécie humana já que, segundo ele, as máquinas poderão nos substituir completamente no futuro. Alguns cientistas já veem robôs fazendo boa parte do trabalho humano em menos de 30 anos!

Noticiada em diferentes mídias no mundo todo, a afirmação bombástica de Hawking não deveria ser motivo de histeria. Pessoalmente, acho que apenas as atividades mais braçais vão realmente desaparecer e que nós, humanos, ainda vamos ter muita serventia neste mundo, por muitos e muitos anos. Entretanto, a declaração não deixa de ser um alerta para repensarmos a sociedade do futuro. Afinal, sabemos que muitas mudanças serão promovidas em nosso cotidiano a partir de novas descobertas, mas a questão é: quais tecnologias devem realizar as rupturas mais profundas na sociedade, tal qual a conhecemos? E quanto ao impacto no mundo do trabalho: que profissões devem realmente desaparecer com tanta inovação?

Claro que as novas tecnologias introduzidas até aqui não apenas extinguiram profissões como também criaram novas. Resta saber se a balança vai se equilibrar entre as ocupações que sumiram do mapa (como telefonista, datilografa) – ou se substituem – (o cocheiro que conduzia charretes trocado pelo motorista) com as novas, como o desenvolvedor de aplicativos ou o gerente de sustentabilidade…

E a atividade agrícola, essencial para nossa sobrevivência, conseguirá escapar ilesa? Um exemplo de mudança já em prática é a “agricultura urbana”, que propõe que o cultivo de hortaliças, frutas e verduras fique mais próximo dos consumidores – em cada bairro ou comunidade. Isso ajudaria a evitar o deslocamento dos alimentos para, além de economizar tempo e dinheiro, promover a integração da comunidade na produção de sua própria comida.

O escritor Peter Diamandis, autor do best seller “Abundância”, vai mais além nessa questão e prevê que, no futuro, as plantações nas cidades serão verticais, viabilizando o plantio e a colheita o ano inteiro, sem uso de pesticidas e sem contaminação do solo. Essa nova prática agrícola permitiria não só obter alimentos mais saudáveis, como também daria emprego à comunidade próxima e diminuiria o trânsito. Além disso, por ser uma atividade com novas técnicas, deveria gerar novas profissões também.

O futurista Thomas Frey, em seu livro “Communicating with the future” nos dá exemplos concretos de algumas invenções que determinarão a morte e o nascimento de profissões. Por exemplo, em função da possibilidade de carros se auto-dirigirem (há textos sobre o tema IG ou no Exame), algumas funções como motoristas de táxi, de ônibus e de vallet parking, além dos policiais de trânsito, cairiam em desuso. Falar de carros tão inteligentes pode parecer muito futurístico, mas as montadoras já têm equipes de pesquisa trabalhando no assunto. Prova disso é que alguns veículos já estacionam sozinhos!  Da mesma forma, os aviões podem ser pilotados à distância, fazendo com que a função dos pilotos mude completamente.

Outra grande invenção que pode abalar as estruturas sociais são os drones. Eles já são utilizados na Amazon e vão mudar dramaticamente algumas tarefas do nosso dia-a-dia. Já sabemos que existirão drones de todos os tamanhos e formas, voando baixo ou alto, para o bem e para o mal. E quando eles realmente forem aperfeiçoados, os entregadores serão, certamente, uma profissão extinta. Talvez até mesmo os correios, que viram sua atividade se reduzir à entrega de pacotes, acabem de vez depois dessa…

Mas a revolução não para por aí. Os drones também poderão nos substituir em funções relacionadas ao controle da agricultura, em especial o plantio, que poderia ser controlado à distância. Talvez por conta dos mesmos drones, milhões de outros serviços braçais – como os de monitoramento (segurança e vigilância) também estejam fadados a morrer. A esta altura você deve estar pensando, como eu, no cientista inglês Hawking: a tecnologia talvez esteja indo longe demais, aonde nem precisava! Parece não haver limites quando o assunto são as mudanças que estão por vir.

A popularização da impressão em 3D, por exemplo, é outra novidade que vai, muito provavelmente, revolucionar nossas indústrias. Descobri hoje – conversando com meu dentista – que as obturações já podem ser feitas por moldes a partir de imagens 3D enviadas aos laboratórios. Fiquei pensando que talvez os próprios dentes possam ser feitos/redesenhados a partir da realidade que a tecnologia em 3D permite. Certamente a função dos dentistas e protéticos e dos médicos também mudará completamente!

Mas e a fabricação de produtos, também sofrerá consequências?  Com o avanço dos estudos da engenharia de materiais, está provado que será possível construir dentro de casa artigos que hoje estão em uma linha de produção, como mostra este artigo, feito já no Brasil. Isso significa que os marceneiros deixarão de existir? E as fábricas, como conhecemos hoje, serão repensadas? Será possível construir casas a partir da impressão em 3D? Uma empresa chamada WASP, na Itália, já demonstrou que isto é possível.

Big data, inteligência artificial, robótica…! Quais outros profissionais isso tudo vai afetar? Será que os contadores e auditores serão substituídos por programas de computador ou aplicativos de celular? E as mudanças na medicina: ainda teremos médicos nos consultórios? Ou chegará o dia em que, ao nos sentirmos mal, vamos entrar em uma farmácia (se elas ainda existirem), nos dirigir a uma máquina que vai colher nosso sangue com uma simples picada no dedo e vai, em seguida, informar que remédio tomar, com posologia e duração?  Existirão médicos e enfermeiros ou este trabalho será feito por robôs? Um mistério para o qual teremos resposta em pouco tempo, certamente.

Tudo isso prova que o futuro é fascinante e cheio de novas verdades. Pensando no perfil da geração Y, esses nativos digitais e loucos por tecnologia vão se adaptar a tudo isso com uma facilidade enorme. Afinal, suas vidas têm sido pautadas por mudanças constantes, entre bits e bytes. Mas eu sempre me pergunto: nós, das gerações mais velhas, estamos preparando os jovens para essa realidade? Ou ainda temos universidades voltadas para profissões do passado, com funções que já não serão exercidas da mesma forma? Com estas novas mudanças, o conceito de “long life learning” (aprendizado contínuo) do qual tanto falam os RHs, é mais urgente do que nunca! Qualquer engenheiro, médico, economista, agrônomo, físico, químico ou dentista que não se atualizar constantemente estará fora do mercado.

Acredito que a mudança deva começar pelos profissionais de RH, em especial recrutadores. Será necessário desaprender e reaprender a cada dia. A bagagem adquirida na faculdade, ainda que o profissional tenha se formado no ano passado, provavelmente já não é mais a melhor forma de conseguir um bom resultado ou performance. Sabemos que a maior parte das vagas no Brasil não consegue ser preenchida por falta de qualificação profissional, segundo o SINE. A taxa de aproveitamento é de somente 25%.

E nós, em nosso papel de família, como podemos ajudar nossos filhos e netos a se prepararem para este cenário cheio de desafios? Como contribuir para que as escolas formem melhor nossos pequenos para esta realidade que já bate à nossa porta? E as organizações, como serão estruturadas daqui em diante? Vale lembrar que o trabalho à distância é uma possibilidade positiva e que deve ser considerada pelas empresas na relação com seus empregados.

Mas vamos e venhamos: nada disso deveria assustar tanto assim. Nem a tecnologia nem qualquer previsão me convencem que seremos completamente substituídos por máquinas. Acho que elas vêm sim substituindo gente e eliminando postos de trabalho (o inglês Tim Harford, economista, escritor e colunista do Financial Times, escreveu há um ano sobre isso), mas não dá para dizer que elas vão, literalmente, tomar 100% das nossas tarefas. Senão, quem irá construir as máquinas e pensar na tecnologia, afinal?

Pessoalmente, acho uma delícia viver nesse ambiente de constante mudança. Essa vibe nos movimenta, nos faz sentir vivos e demanda nossa visão crítica constantemente. Nos impele a rever e verificar se nossas ideias e projetos ainda são válidos e factíveis, nos obriga a refletir e antever o mercado com seriedade. Em vez de prever nosso fim enquanto raça humana prefiro aproveitar ao máximo as coisas boas desse admirável mundo novo. Espero que você esteja do mesmo lado que eu.



Eline Kullock

Eline Kullock formada em administração de empresas pela FGV-RJ e MBA Executivo pela Coppead – UFRJ. Iniciou a carreira na diretoria da Mesbla Loja de Departamentos, onde atuava como Diretora de Recursos Humanos, Planejamento Estratégico e Organização. Eline também foi diretora da Servenco, na holding que congrega empresas de construção, incorporação, administração de imóveis, Hotelaria e Administração de Shopping Centers. Com diversas palestras ministradas no Brasil e no exterior, a profissional é reconhecida com uma das principais fontes nos temas ligados à Recursos Humanos, além de desenvolver pesquisas sobre o comportamento dos jovens e a influência dos videogames em sua atuação profissional, sendo considerada fonte de referência no assunto, especialmente quando se fala em “Geração Y“.