Esqueceu sua senha?

Portal Competência

22 de setembro de 2014
Eline Kullock


A angústia de uma nova geração

Somos uma sociedade dominada pela ansiedade, assim, não é novidade que os mais jovens também o sejam

A angústia de uma nova geração

Terminei o último post falando da angústia da geração Y porque queria aprofundar o tema que está, volta e meia, no centro do debate sobre os males dos tempos atuais. Levando-se em conta que somos, em geral, uma sociedade dominada pela ansiedade, não é novidade que os mais jovens também o sejam. Mas, é interessante analisar os motivos pelos quais somos mais deprimidos do que nossos pais e avós…

Em primeiro lugar, o mundo está cada vez menos previsível. De fato não sabemos, ao acordar, como o dia terminará. Há mais violência – assaltos, sequestros, assassinatos, estupros, acidentes – e isso, por si, já nos obrigada a enfrentar, cotidianamente, o sentimento de incerteza. Da mesma forma, estamos sempre atrasados para o próximo compromisso, tentando encaixar tudo o que precisamos fazer nas nossas minguadas 24 horas do dia. Gastamos mais tempo no trânsito, nos deslocamentos (em grandes e médios centros urbanos), perdendo uma grande fatia de nossas horas úteis, o que nos deixa frustrados.

A cada dia (ou a cada hora!), o valor das empresas onde trabalhamos varia, e elas podem admitir ou demitir seus funcionários, fundir com outras empresas ou ficarem obsoletas, se o mercado desenvolver produtos ou serviços de mais valor. Até nossa tarefa – hoje primordial – corre o risco de ficar obsoleta, em função do crescente desenvolvimento da tecnologia. Isso significa que profissionalmente também somos instáveis, apesar de ainda contrairmos dívidas a longo prazo, apoiados em uma enganosa sensação de estabilidade.

Em segundo lugar, os pais dos jovens da geração Y os educaram dizendo que eles eram ótimos. Todos os educadores de plantão disseram que aquelas crianças aprenderiam melhor se tivessem uma autoestima alta. E, diferentemente das gerações anteriores, eles cresceram ouvindo que poderiam fazer o que quisessem de suas vidas. A campanha de eleição de Barack Obama dizia “Yes, you can” é um exemplo clássico da educação de nossos tempos, na qual damos todo o poder aos mais jovens.

Desde cedo, esses mesmos pais deixaram os pequenos realizar escolhas: da roupa que iriam usar, da comida que iriam comer, dos lugares aonde queriam ir… Para um Y, tudo isso pode parecer muito natural e normal, mas não foi sempre assim. No passado, não era o pai da família que decidia aonde todos iriam no domingo? Não era a mãe quem colocava a mesa, servia a comida e dizia: “lambam os beiços, porque é o que temos para o jantar”? Não era normal uma criança optar tanto por tudo, ter tanta voz, tanta opinião. Essa situação é relativamente nova e veio se estabelecendo com a evolução da sociedade hipermoderna, dando um “empowerment” aos jovens jamais vivido por gerações passadas.

Além disso, outra coisa mudou: vivemos no mundo do “muito”. Na minha época, havia seis ou sete carreiras que alguém poderia seguir na vida, três ou quatro modelos de carro, com menos de cinco opções de cores. Ou seja: havia pouco de tudo. Hoje, com a customização e a tecnologia, vivemos o contrário. Quer um exemplo? No Brasil, temos à disposição pelo menos 100 cursos universitários. Se pensarmos em marcas de telefone celular, televisões, carros, perderemos certamente a conta…

Interessante notar que, com o nascimento da compra virtual, foi possível variar as ofertas, colocando na “prateleira” produtos antes muito caros para serem expostos em uma loja, onde há o valor do aluguel incluído. O autor Malcolm Gladwell fala disso com propriedade em “A Cauda Longa”. Agora, produtos para canhotos, para idosos ou para o público GLBT viraram boas oportunidades para os fabricantes. Sem o custo fixo da vitrine, produtos específicos de mercados segmentados puderam ser expostos e comprados, aumentando em muito nosso leque de opções.

Contudo, ter muitas opções – que deveria nos proporcionar prazer e satisfação –nos gera angústia. Em “O Paradoxo da Escolha”, Barry Schwartz diz que, nos tempos modernos, conquistamos mais democracia e um grau maior de satisfação. Entretanto, essa sobrecarga de poder, sem a real noção das consequências das nossas escolhas, nos deixa mais tensos e, ao mesmo tempo, cria expectativas irreais do tipo: “se você fizer esforço, consegue o que quiser!”. Para Schwartz, o problema é ainda mais sério: o excesso de opções pode nos levar à depressão.

Se repararmos bem, isso já é realidade no que diz respeito às nossas opções de trabalho, de afeto, de esportes, de locais para viver, de estilos de vida e de bens pessoais. Com a sociedade do consumo nos dizendo todo o tempo “consuma este produto ou aquele e seja mais feliz”, a pressão da escolha aumentou, nos gerando mais angústia. Ver os amigos consumindo “outras festas, pelo Facebook” ou Instagram e não ter sido convidado, não estar participando, já é fator de angústia relevante para o jovem. Assim, poder estar em vários locais ao mesmo tempo, por meio das redes sociais, contribui seriamente para a frustração da geração Y.

Moral da história? Precisamos, junto com os jovens, refletir sobre as consequências desse paradoxo do muito, que tanto nos dá prazer, mas que pode nos levar a nutrir sentimentos negativos ao sermos engolidos pela gama exagerada de opções. O primeiro passo é reservar um tempo pensando em como isso nos afeta, e em como podemos ser mais felizes, aproveitando, claro, esse mundo que também é maravilhoso com tantas boas possibilidades, convenhamos.



Eline Kullock

Eline Kullock formada em administração de empresas pela FGV-RJ e MBA Executivo pela Coppead – UFRJ. Iniciou a carreira na diretoria da Mesbla Loja de Departamentos, onde atuava como Diretora de Recursos Humanos, Planejamento Estratégico e Organização. Eline também foi diretora da Servenco, na holding que congrega empresas de construção, incorporação, administração de imóveis, Hotelaria e Administração de Shopping Centers. Com diversas palestras ministradas no Brasil e no exterior, a profissional é reconhecida com uma das principais fontes nos temas ligados à Recursos Humanos, além de desenvolver pesquisas sobre o comportamento dos jovens e a influência dos videogames em sua atuação profissional, sendo considerada fonte de referência no assunto, especialmente quando se fala em “Geração Y“.